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Invece No.

Em algum lugar do grande mundo, sentada no piano do bar de um hotel, alguém fechou os olhos e tocou os primeiros acordes de uma canção. Uma canção escrita pelo coração que não se conformava. Uma canção que ignorava as suas próprias barreiras. A língua era uma forma de mostrar isso, já que não era sua língua materna, nem uma que fosse fluente. A forma com que tocava e cantava, parecia que o salão estava vazio, exceto pela taça de vinho que havia pousado sobre o piano. Mas também parecia que cantava para alguém que não estava ali. Alguém que não sabia onde estava. Não parecia louca, parecia apenas buscar uma conexão por telepatia e fazer alguém sentir o que ela queria dizer, estando longe ou perto.
Nada havia sido escolhido ao acaso. Nada havia sido escolhido. Em tudo há um significado concreto, esperando para ser desvendado. Em tudo há um clamor, uma vida. Uma vida que saía de um olhar direto para um coração.  'You look at me and life comes from you.'

Forse bastava respirare Talvez bastasse respirar
 Solo respirare un pò Só respirar um pouco
Fino a riprendersi a ogni battito Até recuperar cada batimento
E non cercare l'attimo E não procurar o momento 
Per andar via De ir embora
Non andare via Não vá embora

Perchè non può essere abitudine Porque não pode ser um hábito
Diciembre senza te Dezembro sem você
Chi resta qui Que permanece aqui
Spera l'impossibile Espera o Impossível.

Invece no Mas não
Non c'è più tempo per spiegare Não há mais tempo para explicar
Per chiedere se ti avevo datto amore Para perguntar se te dei amor
Io sono qui Eu estou aqui
E avrei da dire ancora  E tenho de dizer 
Ancora ainda

Perchè si spezzano tra i denti  Porque ficam entre os dentes 
Le cose più importanti As coisas mais importantes
Quelle parole che non osiamo mai Aquelas palavras que não usamos nunca
E faccio un tuffo nel dolore  E faço um mergulho na dor
Per farle rissalire e riportarle qui Para traçá-las e trazê-las aqui
Una per una qui Uma por uma aqui

Le senti tu? As suas sensações
Pesano e si posano Pesam e pousam
Per sempre su di noi Para sempre sobre nós
E se manchi tu E se sinto sua falta
Io non so riperterle Eu não sei repetir
E non riesco a dirle più E não posso dizer mais.

Invece no Mas não
Qui piovono i ricordi Aqui chovem as lembranças
Ed io farei di più E eu teria de fazer mais 
Di ammettere che è tardi Para admitir que já é tarde
Come vorrei poter parlare Como gostaria de poder falar
Ancora ancora Ainda, ainda.

Invece no non ho Mas não, não tenho 
più tempo per spiegare Mais tempo para explicar
Ch avevo anch'io E eu também tinha
Io qualcosa da sperare Alguma esperança
Davanti a me À minha frente
Qualcosa da finire insieme a te Alguma coisa para acabar junto a você

Forse mi basta respirare Talvez me baste respirar
Solo respirare un pò Só respirar um pouco
Forse è tardi Talvez seja tarde
Forse invece no Mas talvez não





No meio da canção, a voz suave e levemente acentuada da mulher se esvaia, primeiro em suaves 'pulos', depois em sussurros, por último em um simples cantarolar. Os poucos que ali estavam podiam notar a emoção da desconhecida e podiam notar, não se sabe como, que era uma passagem de sua própria história, um dizer de seu próprio coração. Se houvesse pouco mais que um simples foco de luz, daria para perceber as lágrimas que jorravam como uma cachoeira silenciosa. Talvez pudessem ver nos olhos daquela imigrante que ela buscava com aquilo uma forma de tirar do coração o que já não aguentava mais recordar. Tirar do coração aquilo que ela sabia ser eterno, mas que tinha vontade de largar no chão e seguir. No fim da canção, ela obtinha a resposta. Depois de um profundo suspirar, ela sabia que não bastava apenas respirar. 

I will follow the light.

A Torre Eiffel se acendeu no mesmo instante em que fechei, num quarto de hotel, minha última mala. Parecia que ela e o céu banhado do suave azul com pontos cintilantes e uma gloriosa lua dourada resolviam se unir para formar uma visão única e agradável. O calor de verão e aquela bela visão da sacada pareciam um presente  e refletiam perfeitamente a paz que havia dentro de mim.
Já não havia em mim mais dúvidas, questionamentos ou quaisquer sinais de guerra interna. O descanso no Sena banharam minha alma e trouxeram uma luz que me perseguia durante dias... meses à fio. Meu sorriso se mantinha nos lábios, sem explicação. - Mademoiselle Sophie, já lhe mandaram o carro.  - Disse um criado do hotel ao bater à porta e pegar as malas, sem qualquer ordem. Estavam leves, apesar de tudo. Para que levar para a paz coisas que me fariam ter dor na coluna?  - Oui. Já vou descer. - Respondi como em transe, ainda deslumbrada por aquela benção que caia pela cidade de Paris. No fundo de um túnel escuro e úmido, uma luz do passado brilhava como um sol, mas  com novas promessas. Meu coração não desejava nada além do que seguir essa luz, e com ela eu iria até o fim de mim. 

De todos aqueles dias...

... só guardei três gostos na boca: de Vodca, de lágrimas e de café.

E os dias tinham sido assim para ela...

monótonos, vazios, frios. Toda manhã era a mesma coisa: um banho, uma taça de vinho, engolir a dor, encher o rosto de maquiagem (o que antes não fazia tanto) para que as marcas não aparecessem e ir para o trabalho. Enquanto Bezu em sua arrogância estava pronto para deixá-la ir embora, Collet conversava o bastante para não deixá-la ir e a convencia temporariamente. Dizia que era uma das pedras fundamentais da DCPJ. O que isso significa? Nada. Não mais.
Os policiais, por trás de Bezu e Collet, sismam em mexer com ela. Mesmo ainda usando a aliança, eles sabem de tudo e tentam fazer com que ela esqueça o “passado”, e a chamam para sair ou algo do tipo. Ela não vai. Ela nunca quer ir.
O último tentou agarrá-la no elevador. Sophie nunca tinha usado sua força bruta daquela forma. O policial acabou com o nariz escorrendo sangue, o pulso quebrado e choramingando como um bebê ao embalar suas partes íntimas. Bezu - para seu espanto - não fez nada.
Ao chegar em casa e nada é diferente. Paris, que outrora a fazia bem, já não é mais seu lar. Seu coração está longe, bem longe… e para fingir que aguenta isso, outra taça de vinho… até acabar a garrafa.

E olhava pela última vez o lar de suas alegrias...



Aquele espírito alegre que a casa possuía havia ido junto a ele. Aguardava o taxi que a levaria novamente para Paris. Sentada nos degraus da varanda, com a aliança na palma da mão, girando-a sem parar, absorta em pensamentos. Não havia dormido, mal comera. Passara a noite em frente ao bar da casa, derramando copos de bebida de uma única vez. Até a bebida era carregada de lembranças. Qualquer um que a olhava podia vê-la tremer, mas não era frio. Perguntava-se como estaria ele… Perguntava-se se ele estaria pensando nela. Olhou mais uma vez para a aliança.
 As férias que ele tanto pedia para que ela tirasse, em outras palavras, claro, ela havia tirado. Havia ligado para o trabalho e pedido dias, sem data de retorno. Sentia-se fraca, doente demais para tudo aquilo. Se ao menos houvesse um modo… Suspirou. Apertou com toda sua fraca força a aliança na mão, como se fosse o único elo até ele. Com as costas da mesma mão, enxugou as lágrimas que não cessavam de cair. O queria ali, mas como? Pela milésima vez se amaldiçoava e tentava se convencer de que seria melhor, que ele não a merecia. Mas esse pensamento em nada ajudava. Se ao menos houvesse um modo…

"Se você ler essas linhas, não lembre-se da mão que a escreveu. Lembre-se apenas do verso, o choro sem lágrimas do compositor por quem eu tenho dado a força e isso se tornou a minha própria força. Moradia confortável, colo da mãe, chance para a imortalidade, onde ser querido se tornou uma emoção que eu nunca conheci. O doce piano escrevendo minha vida. Ensine-me a paixão, pois temo que ela tenha partido. Mostre-me o amor, proteja-me da tristeza. Há tanto que eu gostaria de ter dado àqueles que me amam. Eu sinto muito. O tempo dirá esse amargo adeus. Eu não vivo mais para envergonhar nem a mim, nem a você.
E você? Desejaria não sentir mais nada por você..."



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